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Lá vai Maria

Me despedindo de Maria Todas as vezes que me deparo com a morte E nessa vida não foram poucas as vezes Não enxergo branco frio de cultura x Não enxergo preto frio de cultura y Eu vejo é um quente colorido! Um colorido confuso bonito! Assim é que eu sinto despedindo Hoje me despedi de Maria, A mãe linda de uma amiga querida, Me recebeu em casa Deu comida, risada, aconchego de olhar Bateu papo comigo Sinergia de ser humano - Já foi Maria? - Sim, quente e colorida! - Ei, vai deixar saudade! - Guardei a foto pra me lembrar sempre de você! - Viu? Quente, colorida e bonita! Poxa, luz e vida! Lá vai Maria!

O Dia mundial dos direitos humanos também é Indígena por Daiara Tukano

Negaram nossa humanidade quando viram ao longe que nossa pele era avermelhada, e não entenderam que nossas pinturas eram a roupa de nosso espírito. Negaram nossa humanidade quando não perguntaram o nome desta terra que invadiram e batizaram de América, disseram que era virgem como se não já não tivesse muitos filhos. Negaram nossa humanidade quando negaram nossa história de tantos milênios e nos negaram o direito à memória. Negaram nossa humanidade quando não reconheceram nossas línguas e nos impediram de praticá-las, até recentemente, nossos pais eram proibidos de falar as línguas de seus povos, mataram muitas línguas para matar nossa cultura e dizer que não éramos mais índios. Negam nossa humanidade quando negam nossa identidade, e pretensiosos acham que são eles quem define o que é ser indígena, em vez de nós que sempre soubemos quem somos e nunca deixamos de ser. Negam nossa humanidade quando alegam que para ser indígena apenas se for "puro" como se n...

o inverno que chegou

onze botões de flores à espera da primavera O inverno chegou poderoso Pouquidão contundente Monotonia estagnada Gelado e apático Duro como as relações humanas Rarefeito em generosidade Escroto como a solidão Temperado em soberba Embriagado em mal estar Alienado em pessimismo O inverno chegou poderoso Triste na confusão animada Desespero mediatizado Gelado e apático Duro como a relações humanas Explosivo em autocomiseração Empático a sofrimentos Engasgado em impaciência Trincado de rancor Ciente da impotência Resistir sem existir No estrago que impomos a vida Explosão de bomba no vão central! Suicídio coletivo! Fome de tudo.

já se viu horrendo?

eu amo os versos de uma poesia mal feita dessas que a gente esconde com vergonha cada a letra, espaço e pontuação tem sentimento denuncia a gente como a gente não quer querendo denuncia a gente como a gente não se vê fazendo é que eu temo o mundo das palavras duras dessas que a gente sabe que rasga por dentro cada letra, espaço e pontuação tem sentimento denuncia os outros como a gente não quer sofrendo denuncia os outros como a gente não se vê horrendo

Pequenas frustrações cotidianas.

Ameaçou chuva. Melhor descer agora. Solta o cabelo. Olha no espelho. Guarda-chuva na mão. Pega cinquenta reais do aluguel. Humanos e felinos precisam merendar. Humanos e felinos precisam de casa limpa. Chega no mercado de fama pela vigilância. Tem cinquenta reais.  Pega o carrinho. É abduzida pela sessão de jardinagem. O segurança já encarou.  - Dane-se, quero ver as plantinhas. - Só R$3,75! Tem amigo chegando de viagem.  Fez aniversário!  Quer levar de lembrancinha. Vai até o fim da sessão.  Quer a mais bonita. Se aproxima de um corredor estreito. Plantas de um lado. Plantas de outro. Um homem no meio do caminho. Pede licença.  Recebe olhar de: "veio aqui me dar mole". "Quer planta nada!" Invade o espaço mesmo assim. Segue até o fim da sessão.  Quer a mais bonita. Ele olha.  Quer se decidir: cacto ou suculenta? "Veio aqui me dar mole". Droga! Quer se decidir em paz. Decide rápido...

pensamento exprimido

Caminha com semblante apreensivo  alvo na reta, pensamento exprimido na cabeça "headphone" no ouvido ruído, fm político Golpe, briga, armação Taxa, dólar, opressão Presidente e Oposição Decisão e Decepção Que semana apertada tanta coisa pra fazer esse mal estar social conjuntura do mal afastamento anormal  das gentes Caminha com semblante indeciso alvo na reta, pensamento exprimido Vai no caderno e faz esse rabisco.  

NÃO ME ARREPENDO DE NADA | GIOCONDA BELLI

(Tradução base de Silvio Diogo, versão de Jeff Vasques / Imagem: Morning Sun de Edward Hopper ) Daqui, da mulher que sou, às vezes me entrego a contemplar aquelas que eu podia ter sido; as mulheres primorosas, modelo de virtudes, trabalhadoras boas esposas que minha mãe desejou para mim. Não sei por quê passei minha vida inteira me rebelando contra elas odeio suas ameaças em meu corpo a culpa que suas vidas impecáveis por um estranho feitiço, me inspiram; revolto-me contra seus bons ofícios, os prantos noturnos sob o travesseiro, às escondidas do marido o pudor da nudez, por baixo da passada e engomada roupa íntima. Estas mulheres, no entanto, olham-me do interior de seus espelhos, levantam um dedo acusador e, às vezes, cedo a seus olhares de reprimenda e gostaria de ter a aceitação universal, ser a “boa menina”, a “mulher decente” a impecável Gioconda, tirar dez em conduta com o partido, o estado, as amizades, minha família, meus filhos e todos os demais ...