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Ainda bem que eu cortei!

Pedi ao Gabriel que cortasse o meu cabelo.
Queria um corte assim: grande na frente, bem curto atrás.
Se ficasse estranho atrás tudo bem
difícil é lidar com as reações chatas na frente da gente.

Meu amigo cortou, cortou, cortou.
Intervi em vários momentos.
Era nítida a minha insegurança, chatos os meus comandos.
Eu aborrecida num estreito reflexo entre espelhos.

Custou, mas saiu.
Outras visitantes acompanhavam o ritual.
Sentadas na cama da Jô, as monstras,
as transgressoras da paranóia da "beleza e aceitação alheia"
riam e curtiam a mutação: direito sagrado de ser.

Nesse verão em Niterói, no alto dos 27 anos essa poda me fortaleceu.
O cabelo estava muito ressecado por causa de um descoloramento.
Me irritava ainda mais a situação anterior: um chanelzinho.
- Insisto nisso! Não tem nada a ver comigo!

Passado o noturno drama pessoal
Tarde quente, nuca fresca.
Descobri meu redemoinho.
É muito cabelo! Ainda bem que eu cortei!

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