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indígena em contexto urbano


Primeiramente, fora TODOS os que atacam os direitos dos indígenas na política brasileira!

2017. Ainda é, por incrível que pareça, um desafio falar sobre identidade indígena. Desde criança isso é um desafio. Cresci ouvindo meu pai, vó, tios e tias falar com entusiasmo sobre as coisas do norte e a nossa "descendência" indígena, embora sempre houvesse a memória de algum português para floriar sem flores a história da família.

Minha educação infantil não foi muito diferente da que milhões de brasileiros tiveram. Até mais ou menos os meus vinte anos de idade o mito da democracia racial, essa estratégia racista , infelizmente era a ótica única da realidade.

Aprendi como se o Brasil, apesar da desigualdade, fosse um país onde racismo fora um problema superado na Abolição, crime, coisa feia capaz de causar constrangimentos, só que longe do meu círculo social, casos de televisão, raridade... Eu sentia como uma mentira (essa democracia racial), mas isso era a verdade de todos ao meu redor. O racismo esteve sempre presente, era ferida aberta incicatrizável. Incicatrizável e indizível. Eu o percebia presente nos risos maldosos que fazia minhas amigas amuar.

Todo dia 19 de abril era dia de fantasiar-se de índio. Nessas ocasiões, poucas no meu caso, esforçavam-se em problematizar a violência da colonização. Não me esqueço do "louvor" a Amazônia e da displicente consciência ambiental que se pretendia ali, das frases professorais de impacto "O Brasil não foi descoberto, gente. Ele foi colonizado".

Criança geminiana que era sempre abria o bocão: "sou indígena!". Apatia geral. Meus professores me tinham ou como mentirosa (e infelizmente mentia muito mesmo) ou como "doidinha", afinal de contas, ninguém da minha família era aldeado. O assunto era rapidamente desviado. A aula acabava e a frustração era toda e só minha.

1996 foi um ano marcante. Meus pais se separaram, eu fui morar na cidade com minha vó. Antes morava numa zona rural em Maricá. Foi pesado, mas geminiana levei de boa. Não queria causar mais problemas pros meus pais, além daqueles que eles já estavam vivendo. Fui zoada, mas me enturmei. O hit "bate forte o tambor" fez enorme sucesso. Sim, o colégio me fez dançar e tudo...

Esse mesmo ano caricato me reservou algo muito maravilhoso. A diretora e também professora numa disciplina chamada "orientação para a vida" apresentou-me Marco Terena através do livro "Cidadãos da Selva. A história contada pelo outro lado". Tenho o livro ainda. Tinha oito anos, hoje tenho vinte e oito. Perdi a conta de quantas vezes o reli. Marco Terena foi a primeira liderança indígena que conheci. Suspiro prolongado para as fotografias!

Chegou o ginásio. Usaria caneta no caderno e teria uma disciplina de História do Brasil. Agora vai! SQN. As estratégias da colonização e tretas da coroa portuguesa com outros estados-nação foram discutidas. O terror da escravidão indígena e negra nos pasmava, mas nada sobre a nossa perspectiva e História foi ensinado. Sobrava as frases de impacto, mas isso eu já havia ouvido. O genocídio cultural e físico de índios e pretos foi comentado com a mesma displicência dos anos anteriores. Frustração geral.

Em compensação, a História da Zoropa... tinha que saber até o nome dos reis, imperadores, datas de grandes acordos, acontecimentos, blá blá blá whiscas sachê...

(continua...)

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